Existem pessoas que passam por este mundo e deixam marcas vincadas no coração dos que com ele conviveram.
    São exemplos de coragem, carinho e caracter.
    Um deles foi, sem dúvida,  João Augusto Garrido, um Homem com H grande que nos conquistava com um simples sorriso.
    Convivi com ele desde 1976 e tive o previlégio de o ter como sogro e também, carinhosamente chamar-lhe pai.

    Onde quer que estejas pai, abençoa-nos uma vez mais e descança que nunca te vamos esquecer!

    Pedi ao teu filho João Manuel para escrever, a seguir,  algo sobre ti.

    Até ao dia em que nos iremos encontrar!

    O teu genro Tommy










    Recordando…                 João Augusto Lopes Garrido

   Decorria o ano de 1926 quando no dia 20 de Janeiro nasceu, curiosamente, no dia dos anos de sua mãe e, simultaneamente, do mártir S. Sebastião.
    Foi o filho mais novo do casal Francisco Lopes Garrido e Rosa Laranjeira da Silva, ela de Vila Conde e ele da Póvoa de Varzim.
    Dos cinco filhos, um viveu pouco tempo, tendo os restantes chegado a uma bonita idade. O pai faleceu em 1965, com 74 anos, de doença oncológica e a mãe, em 1941 (?) de doença desconhecida.

    A vida dos pais decorreu numa fase um pouco conturbada devido, por exemplo, à Implantação da República e das duas guerras mundiais. Sobre a mãe julgo ter sido doméstica, mas o pai esteve ligado a uma padaria. Não sei se a evolução passou de ajudante de padeiro até chegar ao ponto principal na panificação ou se só foi vendedor. Lembro-me de ter sido uma pessoa bastante influente.




    João Garrido, sempre foi uma pessoa muito responsável e trabalhadora, segundo "rezam" os testemunhos durante a minha não existência e como pude comprovar durante os 55 anos de vida que com ele vivi. O trabalho e perfeição foram o seu lema chegando a fazer, inclusive, trabalhos que a outros pertenciam! Talvez por esse motivo a família fosse, por vezes, um pouco passada para segundo plano e ele próprio pouco tenha usufruído da vida. Justifica-se… a vida nunca foi fácil!





    Regressando ao princípio da sua vida… com 15 anos concluiu o Curso Geral do Comércio, 5º ano antigo, (apesar das dificuldades económicas) e logo a seguir começou a trabalhar numa loja de ferragens e fez parte de um grupo de amigos ( que se intitulava Caixa dos 24 ) onde iam colocando uma poupança periódica, formando um pequeno capital que depois emprestavam a quem lhes solicitava, sob pequenos juros.
A vida era difícil… tempos de pós guerra!...
    Como gostava muito de música, acompanhava a banda da Póvoa, nas festas. Por motivos que desconheço, soube que um dos trompetistas da banda a iria abandonar dentro de 3 meses, mostrando-se o maestro preocupado com essa baixa, ao que ele se propôs a, nesse período de tempo, aprender a tocar trompete, tendo até feito uma aposta com um familiar!... O certo é que, perante o espanto de todos, acabou por fazer a substituição no prazo previsto e assim ficou até ir para África (onde tocou, também, na Banda do Clube Ferroviário de Moçambique) e de novo  na Póvoa, quando regressou após a revolução e enquanto teve forças.
  







    Em África, na década de 40, já lá viviam 2 irmãos que o chamaram em 1946, mais precisamente em Julho. Ficou a viver em casa da irmã Celeste Garrido que estava casada com Armando Pontes que, por acaso, era tio da que mais tarde viria a ser minha mãe.
    Praticamente, após lá ter chegado, foi convidado para ser padrinho de uma das suas duas filhas ( a mais nova, Zita ) que tinha, ou estava, para nascer. (Julho de 46).
    Em termos de exército fez parte da primeira incorporação de Boane. Pelos vistos o serviço militar durou somente 3 meses. A localidade referida passou (pelo menos até à independência) a desempenhar as funções de recrutamento e dista +/- 30 km da capital.





    Feito o serviço militar obrigatório surgiram duas hipóteses de emprego:
        - A Tabaqueira;
        - Os Caminhos de Ferro de Moçambique.
    Depois de algumas indecisões optou pela 2ª hipótese onde se manteve até se reformar, em 1975, ano em que regressou à Póvoa e lá ficou até à sua morte.





    Subiu degrau a degrau a profissão que abraçou tendo chegado à categoria de Fiel de Zona. Nos tempos livres, entre os momentos dedicados à dança e à música, havia momentos em casa, para convívio e descontracção. Num desses momentos, folheando um álbum de fotografias ficou atraído por uma delas que representava uma rapariga (de nome Maria Irene) sobrinha do marido da sua irmã. Resolveu escrever-lhe a pedir-lhe namoro e, tendo sido aceite, em poucos anos acabaria por casar, por procuração, no dia de natal de 1951, na igreja da Lapa de Póvoa de Varzim.
    Não esquecer que os correios de então eram muito lentos e que a ida para as antigas de colónias só se podia efectuar por carta de chamada ou por casamento. Neste caso do casamento ou o noivo vinha à metrópole, ou casava por procuração, como foi o caso deles… carta de chamada para "ele" e, mais tarde, a procuração para "ela".





    Em Abril de 1952 a esposa chega a Moçambique e em Março do ano seguinte nasce-lhes o primeiro filho de nome João Manuel.
    A primeira casa do casal situava-se numa viela paralela à Rua Paiva de Andrade, passando depois para a dita Rua ( 2 ou 3 anos mais tarde ) onde a família aumenta com o nascimento do segundo filho, em 1956 - uma menina de nome Orlanda Maria - e onde viveu também a minha avó materna de nome Irene. Esta casa tinha o nº 77 B e um grande quintal que continha árvores, coelhos, galinhas, e um bonito cão amarelo de nome Boby.
    Nesta altura foi comprado o 1º carro, um Sinca Aronde, preto, de matrícula MML-01-26. Já agora, o segundo ( e último ) foi em 1966, um Peugeot 403, Bege, de matrícula MLE-09-11. De notar que ambos nos acompanharam nas nossas vindas à metrópole.





    Antes de virmos, pela 1ª vez, de férias à metrópole - a 26 de Março de1960 - abordo do paquete Pátria - mudamos, no ano anterior, para uma casa nova, de 3 andares, sita na Rua Carlos da Silva nº15, Alto Maé, essa sim, adquirida por eles com muito "suor"! Primeiro no R/C e, pouco depois, no 2º andar.
    Depois de regressarmos de férias (desta vez no paquete Angola) nasce em 1961 a última filha deste casal - de nome Carla Maria.
    Devo referir que os nascimentos foram todos na maternidade do Hospital Miguel Bombarda, sito na Av. Pinheiro Chagas mas, a dita, na esquina da Princesa Patrícia com a 31 de Janeiro.




















    Quando tudo parecia começar a sorrir eis que chega o 25 de Abril de 1974 que espolia, directamente, não só este trabalhador e a sua esposa bem como, indirectamente, os seus filhos.
    Por uma questão de namoro o filho mais velho veio para a metrópole em Julho desse ano e as suas irmãs foram enviadas, 3 meses depois, pelos pais, para a companhia do irmão, como o intuito de as por a salvo.
    Resistindo até ao fim, finalmente chegam os pais no dia 12 de Junho do ano seguinte, precisamente 13 dias antes da data marcada para a independência.
    Uma tristeza! Depois de uma vida de tanto trabalho, aqui estava de novo um João Garrido (com a sua esposa) com uma mão à frente e outra atrás (como se costuma dizer) a ter que começar tudo de novo.
    Era um homem cansado, doente, mal reformado e a ter que voltar a trabalhar para tentar ver uma nova luz no fundo de outro túnel.
    Este homem, que em África, embora católico, era pouco dado à religião, passou a ser membro assíduo da igreja da Lapa (e não só) onde exerceu alguns cargos e chegou a ministro da comunhão.







    Tendo estabilizado, de novo, minimamente a sua vida, era altura de a ir gozando como merecia. Porém os anos foram passando e a sua doença evoluindo negativamente.
    Como a maioria sabe, a evolução da diabetes (doença silenciosa) repercute-se na falência de certos órgãos vitais - vista, coração, rins, pulmões… - o que fez com que a sua qualidade de vida fosse diminuindo e nos últimos 10 ou 12 anos o levasse a vários internamentos e operações.
Assim foi vivendo resolvendo os problemas do coração e das vistas, mas o facto de ter fumado durante muitos anos fez com que a insuficiência pulmonar não tivesse igual sucesso, impedindo que a deficiente troca gasosa o tivesse levado à morte e, infelizmente, com bastante sofrimento, não só físico como intelectual, por lhe permitir conhecer que a sua vida estava a chegar ao fim.







Faleceu no dia 7 de Novembro de 2008, completamente derrotado, um valente homem de trabalho, honesto, amigo, brincalhão e cheio de vida.
Defeitos… todos nós temos.
Não somos Deus!
Que Deus de Paz à Tua Alma… PAI!
Deixaste raízes que, cada qual à sua maneira, te saberão honrar e continuar o teu caminho.



                                 Lembranças de Ti…