A família Crista, oriunda de Espinho, fixou-se em Matosinhos e Leça da Palmeira na busca de uma vida melhor. Tanto quanto soube, todos se dedicaram ao que melhor sabiam fazer: trabalhar na pesca de mar.
Houve uma ou outra excepção, mas também estava ligada às tarefas do mar (ex. do tio do meu pai, curiosamente com o mesmo nome António Rodrigues Crista, que foi o elemento mais condecorado da história do Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) de Leixões.














As famílias, sempre que possível, tentavam sobreviver unindo-se e criando uma espécie de mini empresa onde todos trabalhavam, independentemente da idade ou sexo. Logo apareceram as siglas familiares. Eram respeitadas por todos e serviam para demarcar a propriedade familiar.

















Mesmo dentro da família, as siglas dos filhos eram uma evolução lógica da dos pais. Curiosamente o filho mais novo herdava o barco (e a sigla) do pai, uma vez era ele que ainda não vivera tempo suficiente para ser tão autónomo como os irmãos.





















Os barcos de pesca de época eram maioritáriamente do estilo lancha poveira. Eram muito robustos e suficientemente espaçosos para sete homens nele trabalharem (às vezes eram mais). Eram movidos a remos ou por uma vela triangular que lhe davam uma silueta bastante característica.

Ao fim de muito sacrifício o avô Francisco Crista lá conseguiu o dinheiro suficiente para ter o seu. O nome atribuido foi Estrela de Israel, com o sua "rosa dos ventos" na proa. No entanto do lado de bombordo outro nome foi escrito: Tememos a noite. Estou convencido que este último tivesse um cariz mais de "talismã religioso".

A "companha" desta embarcação era básicamente familiar: O arrais (mestre) era o avô e haviam ainda os dois filhos, o meu tio Manuel e o meu pai, que começou muito novo. Juntou-se o meu tio Sebastião Nunes, que tinha casado com a minha tia Maria Crista. Com ele, veio o irmão António Nunes. Para completar a equipa juntou-se o primo João Fragateiro e finalmente o único não familiar, mas muito trabalhador, o Francisco Fantasia.


















Andaram à pesca do congro, embora de quando em vez lá apareciam outros peixes diferentes.
Na noite de 6 de Abril de 1937, "o vento, soprando rijo, de norte, impeliu esta embarcação para o mar alto, ficando em perigo extremo. O alarme chegou depressa à capitania do porto de Leixões, sendo imediatamente ordenada a saída do salva-vidas Carvalho Araújo (com o tio do meu pai, acima referido). A meio da manhã, e perante a alegria de muitos, as duas embarcações entravam no porto de abrigo".

Os anos foram passando e um dia o meu avô deu uma queda fatal no cais do norte (Leça da Palmeira). A partir daí, o Estrela de Israel ficou condenado ao abandono (entretanto os seus tripulantes tinham-se mudado para outro tipo de embarcações, tecnologicamente mais evoluídas e rentáveis). A minha tia Maria (sempre ela) é que se encarregava de manter o antigo barco, regando-o com água salgada, para não se desfazer, mas acabou por ser vendido  para uma zona em Entre Rios e nunca mais se soube dele.
Restou o leme, que ficou no pátio da casa durante muitos anos.

Mas, eis que algo muda: O meu irmão Hermengardo viu, certo dia, uma foto antiga que eu tinha recuperado e teve a muito feliz ideia de mandar fazer uma réplica em miniatura da embarcação.
Contactou um senhor, Manuel Calisto, que morava em Perafita, também ele ligado a famílias  "do mar"e era conhecido pelos seus trabalhos neste campo.
Com as informações preciosas do meu pai e a nossa ajuda, lá renasceu o garboso Estrela de Israel, para admiração de toda a família e amigos.


































Assim se vai lutando, para que a herança familiar não desapareça. É ao não esquecermos os nossos antepassados que lhes prestamos a devida homenagem, pelo seu sacrifício, amor a carinho. No fundo, estamos a demonstrar que estamos mais unidos do que nunca.






















"Avô Francisco, nós não te esquecemos!"